Data: 15/03/2010
Fonte: Último segundo
Preocupado com duas altas consecutivas nos índices de inflação logo no começo do ano, o governo elegeu um alvo para tentar segurar o apetite do dragão. Instado pelos sinais que a indústria do aço vem dando de que irá reajustar brutalmente os seus preços, a equipe econômica passou a monitorar os indicadores do setor.
A movimentação começou com um anúncio feito pela Vale no início do mês, quando foi divulgado que a mineradora estava negociando um reajuste de cerca de 90% com um cliente japonês, a siderúrgica JFE Steel. Não demorou para que a indústria nacional passasse a acusar que a gigante do minério também estaria negociando nos mesmos termos com empresas brasileiras, chinesas e europeias.
A questão é que um aumento no preço do minério e, por consequência, no do aço, acarretaria um efeito cascata sobre toda a indústria nacional. Entre os produtores de eletrodomésticos, várias empresas já estão sendo obrigadas a arcar com novas tabelas de preços do aço – os reajustes têm variado entre 5% e 10%. “Estamos preocupados, pois os sinais emitidos pelas siderúrgicas são de mais aumentos, uma vez que a Vale informou que reajustará o minério de ferro, a matéria-prima do aço”, disse um empresário.
O resultado disso é inevitável. “Os consumidores finais, as empresas, que compram máquinas e equipamentos, e as pessoas físicas, que adquirem carros e eletrodomésticos, devem se prepar. É sobre eles que recairá a conta”, afirma o economista-chefe da Personale Investimentos, Carlos Thadeu Filho.
Ameaça do governo
O principal medo do governo é que esses reajustes impactem ainda mais a inflação. No acumulado dos dois primeiros meses do ano, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), utilizado como índice oficial de inflação, registra 1,54%, um terço do centro da meta perseguida pelo Banco Central, de 4,5%.
Nos corredores do Ministério da Fazenda, o sentimento é de traição. Em junho do ano passado, diante da choradeira das siderúrgicas, que haviam reduzido a produção e demitido por conta da crise internacional, o governo cedeu e aumentou de zero para 12% a alíquota de importação do aço. Tudo para proteger a indústria nacional.
“Demos uma proteção importante para um setor temporariamente fragilizado”, avalia um assessor da Fazenda. “A contrapartida deles é que mantenham os preços acomodados. Do contrário, voltaremos a zerar a alíquota”.
Mercado interno
Para o governo, esta parece ser a única saída. Em um mercado livre, cujos preços são definidos principalmente pela oferta e pela demanda, o aço virou produto básico numa economia em pleno aquecimento. Pelas contas da Tendência Consultoria, as vendas de aço no Brasil deverão ter um aumento de 30% em 2010.
“O momento é de recuperação da economia e a tendência é que a indústria se aproveite disso para repassar as perdas que tiveram no ano passado, quando as vendas caíram 25%”, analisa Alexandre Galotti, analista da consultoria.
Diante de um cenário que promete ser complicado para os compradores nacionais, boa parte da indústria passou a buscar soluções que evitem os aumentos abusivos. “Dependendo do fornecedor, está sendo mais barato importar o produto, especialmente da Turquia, mesmo com a alíquota de importação que o governo aumentou”, afirma Paulo Safady Simão, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). “Estamos conseguindo desembarcar nos portos a tonelada a R$ 1.850, valor que é acrescido por cerca de R$ 100 de frete até as obras. Aqui, a mesma tonelada sai por R$ 3 mil”.
Metalurgia 2010
de 14 a 17 de Setembro de 2010