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Entrevista: Parceria afinada na terra do samba
Edição 122 | Fonte: Revista Construção Metálica

Construção do Porto Atlântico Leste, no Rio de Janeiro, obra sob responsabilidade do engenheiro Edson Kater

Diretor de Construção da Odebrecht Realizações Imobiliárias, o engenheiro Edson Kater responde pelas obras prediais da empresa situadas no Porto Maravilha, Rio de Janeiro (RJ). A região é palco de forte desenvolvimento urbano devido à Operação Consorciada da Área de Especial Interesse da Região Portuária do Rio de Janeiro, promovida pela Prefeitura Municipal. Foi lá que a OR executou, entre 2013 e 2016, o empreendimento Porto Atlântico Leste, com quase 110 mil m2 de área construída, onde a empresa aprimorou diversas inovações ao seu modo habitual de construção, inclusive o emprego de estrutura mista de concreto e aço. Nesta entrevista, Kater fala da estratégia para construir o complexo, desde o estudo de viabilidade até sua conclusão, processo em que se destacam a busca por sistemas industrializados, a redução de mão de obra no canteiro e a parceria afinada com fornecedores.

Por que a opção pela estrutura metálica no projeto do Porto Atlântico Leste e como foi a dinâmica de trabalho/parceria entre os vários profissionais?

Em meados de 2012, quando do estudo de viabilidade do empreendimento, o cenário político-econômico do Brasil era bastante promissor e provocava o investimento em novos empreendimentos imobiliários. A procura por espaços comerciais era forte, a demanda por novas unidades hoteleiras fruto do advento dos eventos Copa do Mundo 2014 e Jogos Olímpicos 2016 na cidade do Rio de Janeiro crescia e, portanto, tudo conspirava pela busca de sistemas construtivos ágeis, de menor risco, menos artesanais e dependentes de mão de obra pouco qualificada. Uma verdadeira corrida contra o tempo! Poucos meses antes do início das obras em 2013 tomamos a decisão ousada de migração do sistema estrutural do Porto Atlântico Leste de concreto armado convencional para o tipo misto, ou seja, composto por núcleos centrais de concreto armado (caixas de escada e elevadores) e sistema de pilares, lajes e vigas metálicas. Justamente por conta deste cenário que trazia invariavelmente um clima de concorrência pela reunião rápida de recursos estratégicos para materialização dos empreendimentos, a OR optou pela contratação de uma fornecedora de estruturas metálicas de grande porte e de renome no mercado. No caso, este papel coube a uma empresa de Minas Gerais, com a qual tivemos uma primeira experiência do gênero com a construção da torre corporativa The One, na cidade de São Paulo, que foi o primeiro empreendimento da OR a adotar a estrutura mista de aço e concreto. Esta empresa respondeu também pelos projetos executivos da superestrutura do empreendimento e coube a ela a interação com todas as demais disciplinas de projetos, coordenados pelo escritório responsável pelos projetos legal e executivos de arquitetura. Em geral a comunicação entre todas as partes fluiu muito bem, ainda que dentro de espaço de tempo exíguo, e os resultados foram bastante positivos.

Como foi o processo de compatibilização de projetos e de produção industrial das peças?

Os projetos foram desenvolvidos em CAD com apoio da rotina de “clash detection” da ferramenta BIM, contratado junto à empresa específica para realização da compatibilização dos projetos. Esta inciativa foi fundamental para o rápido e prévio conhecimento das interferências construtivas potenciais, dada à rápida migração de sistema estrutural que, certamente, trouxe impactos dimensionais arquitetônicos e de caráter de instalações em geral. 

O que foi positivo nessa parceria e o que pode ser aperfeiçoado?

A opção pela contratação de empresa única responsável pelos projetos, fabricação e montagem da estrutura metálica trouxe agilidade e facilidade de comunicação entre todos os integrantes de ambas as empresas, direta e indiretamente relacionados ao escopo. Também facilitou a contratação da empreitada global, já que desde o início do processo, ao longo das negociações e até o ato do fechamento, foi possível conciliar os desafios técnicos e econômicos encontrados no ato da decisão pela troca do partido estrutural. Uma possível melhoria nesta disciplina, e isto corroborado pelo fornecedor, seria uma contratação de escopo mais amplo de execução, tendo em vista que no caso do Porto Atlântico Leste a execução das peças estruturais em concreto (fôrma e lançamento) ficou a cargo de empresas menores e especializadas nestas frentes de trabalho. De alguma forma foi identificado algum ruído na agenda diária, ou quase horária, de tarefas alternadas entre elas. Em outras palavras, caberia ao fabricante e fornecedor da estrutura metálica viabilizar em ocasião futura um escopo completo tipo “turn key”, incluindo a execução dos núcleos e lajes em concreto armado. 

Como foi o controle exercido sobre a produção e a montagem das peças no canteiro?

Optamos pela simples verificação de soldas em fábrica, através de amostragem total com apoio de laboratório contratado exclusivamente para este fim. Na obra a conferência de peças se dava de forma apenas visual, a partir dos romaneios de peças extraídos dos projetos de fabricação, e a montagem fiscalizada pelas equipes de Engenharia e Produção da OR, composta por engenheiros, técnicos e estagiários previamente treinados para este fim e equipados com sistemas eletrônicos de acompanhamento. Atenção especial foi dada ao torqueamento dos parafusos de fixação dos elementos metálicos, única forma de fixação das peças em obra. Um dado particularmente interessante foi a opção por pilares metálicos preenchidos de concreto, em vez de tradicionalmente revestidos, o que facilitou e agregou valor notável à qualidade dimensional da estrutura, sem distorções decorrentes de falhas de amarração de fôrmas comumente observadas no sistema convencional. 

De que forma caminharam (e impactaram a velocidade) as etapas de montagem da estrutura, locação de banheiros prontos e fechamento da fachada ventilada no curso da obra?

A OR logo de início percebeu que a corrida pela contratação de recursos para a execução das obras seria forte e desafiadora, dado o momento econômico positivo no país, e especificamente no Rio de Janeiro, por conta dos eventos esportivos. Inúmeros empreendimentos seriam executados neste período e sabíamos da carência de recursos, especialmente humanos. Então, além da opção pelo sistema estrutural misto, em concreto e metálico, buscamos diversos outros subsistemas construtivos calcados em pré- fabricação, ou seja, que chegassem à obra semiprontos e dependentes de equipes de montagem bastante reduzidas. Destaco entre eles a opção pelas vedações verticais em dry-wall, fachadas ventiladas unitizadas, kits de instalações e especialmente os banheiros-prontos. 

Quais foram os benefícios dessa solução para o cronograma da obra?

A maior preocupação desde o início das obras, e até mesmo alguns meses antes, durante o período que chamamos de Engenharia à Montante, ocasião em que estressamos os estudos técnico-econômicos buscando a materialização dos melhores resultados ao término das obras, era não perdermos tempo valioso. O cenário de concorrência entre as construtoras e incorporadoras certamente traria riscos de atrasos decorrentes da falta de recursos humanos e mesmo materiais, e a opção pela pré-fabricação, ou melhor, pela redução sensível de trabalhadores em campo, permitiu que atingíssemos os objetivos originais de término e legalização das obras. Um exemplo destacado desta situação foi a opção pelos banheiros-prontos. O cronograma original previa a execução de cerca de 500 banheiros dos hotéis em aproximadamente um ano. Pela opção feita, instalamos todos os banheiros dentro de um período inferior a quatro meses. Sem falar no possível retrabalho típico do sistema tradicional, praticamente inexistente nestes locais.

Qual foi o  aprendizado técnico e que know-how será incorporado?

A opção por sistemas mais caracterizados como semiprontos e pré-moldados em fábricas é definitivamente um caminho sem volta. Se comparados com os sistemas tradicionais e artesanais de execução ainda muito em voga no Brasil, as chamadas “obras molhadas”, os resultados técnicos e estratégicos obtidos são certos. Ainda que mais relacionados com edificações prediais comerciais, corporativas e hoteleiras, estamos convencidos de que mesmo as edificações residenciais podem e devem atrair simplificações similares, com bastante cautela, lembrando que o nível de exigência do proprietário de uma residência ainda é maior do que em relação aos locais onde ele trabalha ou passa menor tempo. É também uma questão cultural, mas que já denota boa migração e aceitação por sistemas mais modernos e práticos, e que simplificam o dia a dia dos clientes finais.

Considera que o resultado econômico final foi positivo?

Certamente sim. Quase que em 100% dos estudos de viabilidade de empreendimentos imobiliários, ainda que se prevejam verbas de contingência de projetos e execução, não há previsão de outras para custeio de atrasos e retrabalhos, imprevistos estes que em geral acontecem. De forma análoga ao tempo, prefiro afirmar que os resultados econômicos originais foram atingidos, com mínimo desvio em relação às metas econômicas estabelecidas quando da viabilidade.


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